Cartas católicas ou gerais

Sumário

Introdução

1 A carta a Tiago

1.1 Origem e destinatários

1.2 Conteúdo

1.3 Destaques

2 A Primeira Carta de Pedro

2.1 Origem e destinatários

2.2 Conteúdo

2.3 Destaques

3 A 2ª Carta de Pedro

3.1 Origem e destinatários

3.2 Conteúdo

3.3 Destaques

4 A 1ª Carta de João

4.1 Origem e destinatários

4.2 Conteúdo

4.3 Destaques

5 A 2ª Carta de João

6 A 3ª Carta de João

7 A Carta de Judas

7.1 Origem e destinatários

7.2 Conteúdo

7.3 Destaques

Conclusão

Referências bibliográficas

Introdução[1]                                                                       

Os escritos comumente chamados “Cartas Católicas” devem seu nome ao vocábulo grego katholikós, que significa “universal, geral, para todos”, pois na forma recebida no cânon não se destinam a uma comunidade em particular. As igrejas oriundas da Reforma Protestante preferem chamá-las de “Gerais” – ou também “Universais”, mas este termo é pouco adequado, pois não se dirigem ao mundo universal e sim a ambientes concretos, cuja situação sócio-histórica tem relevância para a interpretação. Por serem escritas em diversos momentos do primeiro século cristão, para ambientes diversificados, elas revelam uma variedade de questões que sensibilizavam as primeiras comunidades e que, muitas vezes, são relevantes ainda hoje. Mostram que, desde suas origens, a teologia cristã se concebe como diálogo aberto e plural.

Quando, no decorrer do segundo século, os primeiros escritos cristãos foram progressivamente acolhidos no cânon do Novo Testamento, essas cartas foram atribuídas aos apóstolos Tiago, Pedro, João e Judas (Tadeu). Como é o caso de outros escritos bíblicos, a “autoria” significa antes a autoridade às quais são atribuídas do que a autoria técnica. Em quase todas elas encontram-se reflexos do judeu-cristianismo, um cristianismo que não esqueceu a tradição de Israel, mas a integrou na adesão a Jesus de Nazaré como Cristo-Messias e Salvador – à diferença dos “judaizantes”, que admitiam Jesus como profeta ou taumaturgo, porém situavam a salvação na observância da Lei de Moisés.

1 A Carta de Tiago

1.1 Origem e destinatários

Embora os exegetas em geral não considerem como autor efetivo aquele a quem o escrito é atribuído pela tradição, convém esclarecer quem foi o Tiago a quem a carta é atribuída, porque pode ser um indício de seu ambiente, um judeu cristianismo de língua grega tendo conservado os laços com a comunidade mãe de Jerusalém (KOESTER, 2005, t.II, p.172-173). A atribuição a Tiago remete, de fato, ao líder da primeira comunidade cristã em Jerusalém (At 1,13; 12,17; 15,13; 21,18; 1Cor 15,7; Gl 1,19; 2,9.12), contado entre os “irmãos do Senhor” (termo de significado amplo, usado em Mt 12,46-49; 13,55; 28,10; Mc 3,31-35; Lc 8,19-21; Jo 2,12; 7,3-20; At 1,14; 1Cor 9,5; cf. Jo 20,17). Em Mc 6,3, ele é mencionado como primeiro dos irmãos de Jesus, filhos de certa Maria (Maria de Tiago, mencionada como a “outra Maria” em Mt 27,56.61; 28,1). Em Gl 1,19, Paulo o chama explicitamente “o irmão do Senhor”. Na lista dos apóstolos, ele aparece como “Tiago (filho) de Alfeu” (Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15; At 1,13). Na forma lucana da lista (Lc 6,15; At 1,13), ele está na vizinhança de “Judas de Tiago”, que seria o Tadeu de Mt 10,3‖Mc 3,18. Por isso ele foi identificado com o Tiago mencionado como “irmão” de Jesus, ao lado de Judas e Simão, em Mc 6,3. Porém, nem todos os estudiosos aceitam a identificação do “Tiago Menor” de Mc 15,40 com o “Tiago de Alfeu” de Mt 10,3‖Mc 3,18 (questão sucintamente tratada em KÜMMEL,1982). De toda maneira, a insistência de Mc 15,40.47; 16,1 em mencionar, como testemunha da cruz e do sepulcro vazio, “Maria (mãe) de Tiago, o Menor” – a “outra Maria” de Mt 27,61; 28,1 – parece apontar para o lugar de destaque que esse Tiago ia exercer na comunidade Jerusalém. Ele deve certamente ser distinguido de Tiago Maior, filho de Zebedeu, irmão de João (os Boanerges de Mc 3,17), que morreu em 44 dC por ordem de Herodes Agripa (At 12,2), enquanto Tiago, o chefe da comunidade de Jerusalém, morreu em 66 dC, segundo informação do historiador judeu Flávio Josefo (1992, p. 465).

Podemos supor que a carta surgiu no ambiente de Jerusalém ou do judaísmo palestino, que mantinha contato com as comunidades da Síria (Damasco, Antioquia). Ao examinar a fundo, percebe-se uma proximidade forte com a mais antiga tradição a respeito de Jesus. A Carta de Tiago lembra o Sermão da Montanha (Mt 5–7) ou da Planície (Lc 6,20-49), a ponto de se pensar que o autor tenha conhecido a coleção de sentenças de Jesus usada por Mateus e Lucas, a Logienquelle ou “Fonte Q” (cf. VOUGA, 1995, p.18; sobre Q: KLOPPENBORG, 2005). Todavia, essa semelhança pode também ser explicada pela memória viva, pelos contatos dos pregadores e pela tradição oral, principal canal de transmissão naquele tempo. Visto o conteúdo genuinamente “jesuano” e a forma profético-sapiencial judaica, a carta parece datar da segunda geração cristã, antes da destruição de Jerusalém (70 dC), à qual ela não faz alusão. Contudo, há quem o situe bem mais tarde, por causa da evoluída forma literária (VOUGA, 1995, p.19). A carta cita o Antigo Testamento segundo a tradução grega (a Septuaginta) e é escrita em grego koiné fluente, língua corriqueira dos judeus na “diáspora dos gregos” (Jo 7,35) e também em Jerusalém, como atestam o letreiro da cruz (Jo 19,20) e a “sinagoga dos libertos”, à qual pertenciam Estêvão e os diáconos, todos portadores de nomes gregos (At 6,9).

Uma objeção que se faz à origem apostólica da carta é que ela não contém quase nada de especificamente cristão. Essa objeção provém do preconceito que contrapõe o judaico ao cristão. Não é essa a mentalidade, por exemplo, da Primeira Carta de João, que apresenta ao leitor o “mandamento antigo”, o qual, porém, é “um mandamento novo, que é verdadeiro nele (Cristo) e em vós” (1Jo 2,7-8).  Ou seja, o cristianismo não é o contrário do judaísmo, mas a sua plenificação (possível sentido de Rm 10,4) – e é assim que se deve entender a relação entre a antiga e a nova Aliança, conforme Jr 31,31-34. Tiago representa a tradição da sabedoria judaica, a qual agora se torna cristã, não por um novo conteúdo, mas por um novo espírito e uma nova prática, “em Cristo” (Tg 2,1).

1.2 Conteúdo

Não é uma carta formal, nem termina com uma fórmula de encerramento. A estrutura lembra o livro dos Provérbios: uma coleção de exortações (cap. 1), que nos cap. 2–5 são retomadas e aprofundadas, incluindo talvez alguns trechos homiléticos.

1,1-27 Saudação e temas (exortação à constância na provação, oração, ouvir e praticar)

2,1–5,6 Desenvolvimentos:

  • amor fraterno, sem discriminação 2,1-13
  • a fé sem as ações é morta 2,14-26
  • o poder da língua 3,1-12
  • a rivalidade (vs. a sabedoria do alto) 3,13-18
  • a cobiça e a maledicência 4,1-12
  • a autossuficiência e a riqueza 4,13–5,6
  • 5,7-20 Exortações finais (5,7-11 retomando o começo: a constância; 5,12-20 juramento, oração, correção fraterna), sem fórmula de encerramento ou saudação.

1.3 Destaques

– Fé e obras. Quis-se ver neste texto uma polêmica entre Tiago e Paulo em torno da questão das “obras”. Tg 2,14-26 ensina que a fé sem as obras é morta. “Como é morto o corpo sem o espírito, assim também a fé, sem as obras, é morta” (2,26).  Nesta comparação, Tiago associa as obras ao espírito, mas a fé, sem as obras, ao cadáver. Isso é contrário à antropologia grega (que opõe o espírito/a alma ao que é material), mas corresponde perfeitamente à mentalidade bíblica, para o qual o espírito serve para animar o corpo: as obras revelam o dinamismo conferido pelo espírito divino à pessoa ou à comunidade, como na visão de Ezequiel 37. Porém, sem o dinamismo das obras inspiradas e dinamizadas por Deus (o “fruto/produto do Espírito”, Gl 5,22), a fé que a comunidade confessa torna-se um cadáver. Ora, em aparente oposição a Tiago, lemos em Paulo que ninguém é justificado pelas obras, mas sim pela fé (Rm 3,20.28; Gl 2,16 etc.). Paulo, porém, não fala, nesses textos, das obras inspiradas por Deus, mas do esforço autossuficiente por observar as obrigações da lei de Moisés (em sua interpretação estreita), principalmente a circuncisão (não mencionada em Tg), como expressão do humano gloriar-se (káukhesis). De fato, os mesmos judaizantes que, vindos do ambiente de Tiago (Gl 2,12), convenceram Pedro a não ter comunhão de mesa com os gentios, instigavam os gálatas pagãos a assumirem o prestigioso status dos judeus, mediante a circuncisão e a observância dos rituais judaicos. Para Paulo, isso são obras da “carne”, isto é, da autossuficiência humana, não do espírito da liberdade. Tais obras não tornam ninguém justo diante de Deus. Mas quem pela fé se entrega a Jesus, morto por amor na cruz, e assume as consequências práticas disso, é declarado justo por Deus e seguirá a “lei do Espírito da vida, em Cristo” (Rm 8,2); e produzirá, segundo a lei única do amor, o fruto que vem do Espírito (Gl 5, 14.22-23). Também Paulo ensina que é justificado quem põe a lei em prática (Rm 2,13) e que “a fé atua pelo amor” (Gl 5,6).

No fundo, esses textos de Paulo ensinam a mesma coisa que Tg 2,26. Não é preciso supor um contato entre Paulo e o autor da carta de Tiago. Escrevem em contextos diferentes. Temos aqui um exemplo interessante de “hermenêutica plural”, porém, não contraditória. Ambos, à maneira dos rabinos, buscam um sentido (derash, midrash) a partir de um importante texto da Torá, Gênesis 15,6: “Abraão creu no Senhor e isso lhe foi creditado como justiça”. Paulo interpreta que Abraão foi justificado pela fé, sem as obras da Lei (Rm 4,3.9.22; Gl 3,6). Tiago diz que Abraão foi justificado porque pôs a fé à obra, a ponto de querer oferecer seu filho, se tal fosse a vontade de Deus (como acreditava a arcaica religião cananeia). A interpretação de Paulo não exclui a de Tiago, ambas se completam. Paulo nega a força salvífica das prescrições cultuais da Lei mosaica, principalmente a circuncisão (almejada pelos gálatas pagãos para se equipararem aos judeus), enquanto Tiago realça a prática ética que comprova a obediência à palavra de Deus, a verdadeira religiosidade (Tg 1,27), como já fora dito pelos sábios do Antigo Testamento (Sr 35,1-2[1-4]).

– A “lei régia” (2,8), que consiste na primazia do amor fraterno, é também a “lei da liberdade” (2,12). Essas expressões refletem a expectativa do Reino de Deus e da libertação de Israel, já reinterpretadas em sentido cristão, dando a entender que esse Reino já está em função.

– A paciência, constância ou firmeza permanente (1,2-18; 5,7-11). Em imagens sugestivas, tomadas da vida dos santos e dos profetas, da natureza e da vida agrícola, a carta ensina a constância na espera da nova vinda do Senhor. De fato, já havia passado muito tempo desde a ressurreição de Jesus, e a espera de sua volta começava a pesar. Tiago ensina a estar sempre pronto para o juízo de Deus.

– A sabedoria como dom de Deus está presente na carta inteira. Em 3,15.17, a “sabedoria do alto” é contraposta à perigosa e, muitas vezes, venenosa oratória humana. A carta reage contra a tendência, existente na “sinagoga cristã”, de todos quererem ser mestres. Desde o início ensina a necessidade de pedir a sabedoria (1,5), expondo em seguida seu valor (3,13-18; cf. 1,17). Trata-se da sabedoria prática, ensinada também no Antigo Testamento (Jó, Pr, Ecl, Sr, Sb), mas agora posta sob a luz de Cristo.

– A riqueza, que torna presunçoso e, muitas vezes, é fruto de injustiça (4,13–5,6). Por trás dessas admoestações e censuras percebemos a estrutura sociológica da(s) comunidade(s) às quais a carta é dirigida, comunidades da diáspora, onde se misturam, dentro da população de origem judaica, comerciantes que viajam de cidade em cidade, proprietários que devem ser instados a pagar o devido salário, e pobres (os que “não tiveram sorte”).

– Ao falar do cuidado dos enfermos, o texto realça a importância da oração eclesial, da mútua confissão dos pecados e da correção fraterna (5,13-20). Aqui aparece o valor terapêutico da oração e da confissão, o abrir-se diante de Deus na presença de irmãos e irmãs, para receber a segurança do perdão e a paz da alma, e até a saúde do corpo (v.15). Estão aí as raízes do Sacramento dos Enfermos da Igreja Católica.

2 A Primeira Carta de Pedro

2.1 Origem e destinatários

A 1ª Carta de Pedro é dirigida a um ambiente geográfico bem circunscrito: a região norte da Ásia Menor, hoje Turquia (1,1: Ponto, Galácia, Capadócia, Província Ásia e Bitínia, regiões povoadas com os “bárbaros” locais, com os gregos da classe dominante e com os “colonos” do Império Romano; além de outros povos – judeus, sírios…). A carta se respalda na autoridade de Pedro, “apóstolo de Jesus Cristo” (1,1) e chefe da igreja de Roma, talvez já martirizado. Na última parte, transparece a relação problemática com as autoridades civis; de modo significativo, o autor assina a carta como se estivesse em Babilônia (5,13), codinome de Roma (cf. Ap 17–18) e símbolo do desterro do povo de Deus (o exílio babilônico).

A figura do novo povo de Deus no desterro permeia o texto inteiro. Não é apenas uma lembrança do Antigo Testamento ou uma referência à verdadeira pátria no céu (como em Hb 11,14-16).  Os cristãos, em boa parte oriundos do judaísmo, parecem ser considerados cidadãos de segunda categoria, estrangeiros residentes (e nem sequer como os outros judeus, dos quais eles vão se distanciando). Há também fiéis que vêm do paganismo (cf. a alusão em 4,3), porém conhecedores da memória e dos símbolos de Israel. A esse auditório, a carta apresenta a comunidade cristã como um lar para os que não têm casa na sociedade (ELLIOTT, 1985). Eles constituem a verdadeira casa e povo de Deus, desde que vivam a dignidade do batismo e se sustentem mutuamente pelo amor fraterno, firmes na fé e na esperança.

Para “responder a quem pergunta pela razão de sua esperança” (1Pd 3,15), os fiéis devem mostrar ao mundo a diferença cristã, que consiste em esperar a salvação no nome de Cristo (com tudo o que esse nome implica). Não baseiam sua esperança no poder do Império ou no bem-estar que a vida no mundo mediterrâneo lhes poderia oferecer. Dar as razões da esperança em Cristo não consiste em apologética verbal ou teórica, mas na mansidão e na recusa da violência, atitude que os torna semelhantes a Cristo, o Servo Sofredor, o justo que sofre pelos injustos, pois é melhor sofrer praticando o bem do que fazendo o que é mau (3,16-18). A verdadeira apologética não provém dos argumentos teológicos, mas do exemplo da vida.

2.2 Conteúdo

O núcleo da carta é essencialmente cristocêntrico: o testemunho cristão pela configuração da vida com o Cristo Servo. A carta evoca inicialmente a dignidade cristã, recebida no Batismo (pedras vivas, com Cristo como pedra angular: 1,13–2,10), para depois aplicar isso às diversas situações da vida (2,11–4,12). Enfim, seguem-se considerações diversas para a vida em meio ao conflito com a sociedade (4,13­–5,11).

  • 1,1-12 Saudação e ação de graças
  • 1,13–2,10 O santo estilo de vida como povo e casa de Deus
  • 2,11–4,12 A existência cristã exemplar no mundo
  • 4,13­–5,11 No meio do conflito com a sociedade
  • 5,12-14 Saudação final

2.3 Destaques

– Estrangeiros no mundo. A carta aplica aos leitores os termos que lembram, ao mesmo tempo, os israelitas do Antigo Testamento enquanto migrantes ou estrangeiros (no Egito e na Babilônia) e os “estrangeiros residentes” (com deveres, mas sem direitos) nas cidades do Império Romano. Esta parece ter sido a realidade sociológica desses cristãos e também sua experiência como fiéis em face de um mundo estranho ao projeto de Jesus.

A comunidade eclesial é povo de Deus e casa de Deus, feita com pedras vivas edificadas sobre a pedra angular que é Cristo (2,1-10). Para que essas pedras sejam realmente vivas e a casa realmente casa (família), é preciso praticar a fraternidade no dia a dia.

– Essa existência de “estrangeiros residentes” no mundo caracteriza-se pela dignidade e a amabilidade na sociedade e na família. As “tábuas domésticas”, em 2,13–3,7, ensinam a moral pública e familiar. Aconselha-se a lealdade para com as autoridades humanas (se forem legítimas), mas sem divinização. Respeito para todos, com inclusão do Imperador, mas para os irmãos, amor, e para Deus, temor (2,17). Ao Imperador se deve honra como a todos os demais, não adoração. As mulheres são, como de costume, convidadas a subordinar-se à autoridade do marido, mas os maridos têm também deveres de respeito e carinho para com as mulheres (3,1-7). Virtudes semelhantes devem reinar na comunidade dos fiéis, concebida como uma família (3,8-12). Isso parece “burguês”, mas o espírito e as motivações apontam mais para uma “estratégia evangelizadora”: dar um exemplo aos gentios (3,12), conquistar o marido para a fé (3,1-2), dar as razões de nossa esperança a quem pergunta (3,15); enfim, imitar Cristo, pois nisso consiste a novidade cristã (2,21-25; 3,18).

A perspectiva do fim (4,7) dá força para suportar essa vida “estranha”. Também hoje devemos marcar a diferença cristã, pois não podemos concordar com tudo o que se impõe no mundo. Para isso, é bom sabermos que nossa realização não depende de nosso sucesso neste mundo.

3 A 2ª Carta de Pedro

3.1 Origem e destinatários

Este escrito (2Pd) se apresenta como “a segunda carta que vos escrevo” (3,1). É o testamento pastoral de Pedro (o que 2Tm é para Paulo). Com a intenção de corroborar a fé na vinda de Cristo, cita o testemunho ocular de Pedro. Os destinatários não são definidos. Preocupado com a reta doutrina e a interpretação das Escrituras, inclusive das cartas de Paulo, o texto mostra que, naquele momento, não só o Antigo Testamento, mas também as mais antigas partes do Novo já eram consideradas Escritura Sagrada. Muitos consideram a carta bem posterior à Primeira Carta de Pedro; pode ser situada por volta do ano 100 dC. Seria, pois, o último escrito da Bíblia cristã.

3.2 Conteúdo

  • 1,1-2 Saudação
  • 1,3-21 A verdade a nós transmitida
  • 2,1-22 Os falsos mestres
  • 3,1-16 Desânimo e vigilância: Deus não tarda
  • 3,17-18 Exortação final

Depois de recordar aos destinatários a fidelidade (1,12), a carta mostra que a tradição que Pedro representa é garantida (1,16-18: ele foi testemunha ocular da glória de Cristo, quando da Transfiguração, cf. Mc 9,2-10 e par.). Respaldado por essa autoridade, o autor exige confiança nas palavras dos profetas, que se cumpriram em Cristo, pois a profecia é inspirada por Deus (1,21). Ora, há quem não respeite as profecias. Usando trechos da Carta de Judas (expurgados de alguns elementos apócrifos), o cap. 2 denuncia os falsos profetas que se introduziram na comunidade. Depois, traz à memória as profecias e as palavras do Senhor a respeito de sua nova vinda. Esta é a questão central desta carta, escrita no fim do primeiro ou no início do segundo século dC. Há quem desmoralize a comunidade, ensinando que Jesus não voltará. A resposta de Pedro é: diante de Deus, mil anos são como um dia (3,8). A palavra de Jesus não engana: seu dia vem como um ladrão (3,10; cf. Mt 24,43-44). Também Paulo escreveu isso (3,16, cf. 1Ts 5,2; 1Cor 15 etc.). Os falsos mestres, porém, deturpam os escritos de Paulo como deturpam as antigas Escrituras (3,15-16). Estas frases mostram que, para este autor, representante da Igreja de Roma, Paulo já está sendo reconhecido como autoridade.

3.3 Destaques

– A questão da Parusia. A comunidade parece cansada de esperar. Desde a morte e ressurreição de Jesus, durante setenta anos, os cristãos se firmaram na esperança da volta do Senhor (cf. ainda 1Pd 4,9). Agora, porém, alguns começam a se cansar e a ironizar. A reação de 2Pd consiste em apelar à memória, lembrando as profecias que anunciaram o Messias e o Juízo, e recordando o testemunho ocular do apóstolo Pedro e os escritos de Paulo. Até hoje, esta questão continua objeto de uma hermenêutica aberta. Jesus não voltou no prazo e no modo que imaginavam. Entretanto, muitos textos no Novo Testamento, sobretudo da linha joanina, mostram que Jesus já está presente no meio de nós e que, na fé e na caridade, já vivemos a vida eterna.

– Ortodoxia e magistério. Esta carta, provavelmente o último escrito do Novo Testamento (e da Bíblia inteira), mostra a incipiente sistematização da doutrina, bem como o recurso à autoridade dos profetas e dos apóstolos para garantir sua conservação fiel. Fala para todas as igrejas, sem destinatário específico. Corresponde a uma necessidade nova para a Igreja, que está entrando na quarta geração de fiéis. A “Igreja primitiva” chegou ao fim.

4 A 1ª Carta de João

4.1 Origem e destinatários

A Primeira Carta de João (1Jo) não tem forma de carta: faltam-lhe endereço e assinatura. Parece uma homilia ou meditação, divulgada por escrito. Com boas razões, é tradicionalmente atribuída ao autor do Quarto Evangelho. O estilo e o pensamento são altamente semelhantes. Se foi escrita antes, durante ou depois da elaboração do evangelho não se sabe, mas muitas vezes a carta esclarece em alguns pontos o evangelho, e vice-versa.

Não sabemos a que comunidade a carta foi dirigida, mas o conteúdo sugere uma situação semelhante à das sete igrejas do Apocalipse (Ap 2–3). A insistência no conhecimento e no discernimento (com frequente uso dos verbos “saber” e “conhecer”), a afirmação da existência “em carne” de Cristo e a polêmica contra os que se consideram sem pecado corroboram a hipótese de que o autor reage a tendências gnosticizantes (KOESTER, 2005. Ver sobre a gnose, o gnosticismo e as tendências gnosticizantes no t.1, p.384-90).

Os fiéis se perguntam se estão em comunhão com Cristo e com Deus e, portanto, seguros para o Juízo. O autor responde: o verdadeiro conhecimento de Cristo é a comunhão com ele e com Deus, que se verifica na fé e no amor fraterno. Fé significa crer (no sentido de confiar) que Jesus – aquele mesmo que viveu “em carne entre nós” (1Jo 4,2) – veio da parte do Pai; e também, guardar sua palavra, amando os irmãos e repartindo com eles os bens deste mundo (3,16-17). Isso se chama: andar na luz. Quem faz isso está seguro.

A carta contém expressões arrojadas: Deus é amor (4,8.16), no amor não há temor (4,18)… Ao mesmo tempo, é lúcida: desmascara a conversa fiada dos pretensos impecáveis (1,6.8), ensina a distinguir os “espíritos”, ou seja, as inspirações dos que tomam a palavra na comunidade (4,1-2) e corrobora os leitores na fé e na prática, mostrando que eles têm, por Jesus e em Jesus, o verdadeiro conhecimento de Deus (4,11-12 etc.).

Os adversários mencionados na carta dizem ter o conhecimento de Deus e de Jesus Cristo, mas eles não amam seus irmãos. Isso, segundo o autor, é negar Jesus que veio “em carne” e deu sua vida por nós. Ao conhecimento gnóstico, que concebia Jesus como o Logos (Razão) de Deus, não verdadeiramente humano, a carta opõe o verdadeiro conhecimento de Deus e de Cristo, insistindo na vinda “em carne” de Jesus (4,2) e no amor em ações e de verdade (3,18).

4.2 Conteúdo

A meditação avança em forma de espiral, voltando sempre aos mesmos temas, com novas variações. Podemos realçar os principais acentos:

Abertura: 1,1-4: a Palavra da Vida.

I. 1,5–2,28: a partir do tema da LUZ, o texto aponta os critérios para saber se temos comunhão com Deus: a participação na luz de Deus, livres do pecado, no amor e na fé. O amor é aqui apresentado sob seu aspecto de “preceito antigo, porém novo em Cristo e em nós” (2,3-11).

II. 2,29–4,6: aquele que crê em Cristo e pratica a JUSTIÇA e o amor-caridade, é filho de Deus e conseguirá preservar sua fé e seu amor pelo “discernimento dos espíritos”. O amor é aqui meditado à luz de Cristo (3,11-24).

III. 4,7–5,12: o critério principal de nossa certeza é o AMOR: Deus é amor (4,8.16). Cremos neste amor, que é o de Cristo, e esta fé vence o “mundo”, que é o sistema oposto a Cristo (5,1-12).

Conclusão: 5,13: a intenção do escrito (5,14-21 é uma nota explicativa de alguns tópicos).

4.3 Destaques

– A cristologia. Desde as primeiras linhas, a carta projeta a imagem do Cristo Palavra da Vida, que é o Jesus de carne e osso “que nossas mãos apalparam” (1,1-3). Não devemos ler a carta a partir de conceitos gerais ou de um discurso abstrato em torno do amor. O modelo é Jesus Cristo na sua existência histórica (“carne”).

– A veracidade da Encarnação. Os “docetistas” (do grego dokein, “parecer”) não aceitavam que Jesus nos tenha salvo e liberto por sua “carne”, sua existência humana mortal, coroada com glória na ressurreição. Consideravam a humanidade de Jesus como mera aparência. Jesus, o “Logos” (Palavra de Deus), seria um espírito puro, que se disfarçou em aparência humana para trazer sua “revelação” e depois voltar à órbita celeste. Chegaram a dizer que quem morreu na cruz foi Simão de Cirene! A carta de João, bem como seu evangelho, identifica a glória de Jesus com a cruz. A glória não se dá fora da “carne” frágil e mortal, mas na carne. É na carne que Cristo nos salvou.

– A escatologia. “É a última hora” (1Jo 2,18). O definitivo já começou, embora ainda não se tenha manifestado completamente: “Desde agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que seremos” (1Jo 3,2). O decisivo já está presente e projeta sua luz sobre o nosso agir.

– A eclesiologia. Nesta carta não se usa o termo “igreja”, nem se fala em hierarquia, organização etc. O que importa é a comunhão, que se verifica na mística (união com Deus) e na prática (amor ao irmão). Essa presença da obra de Deus e de Jesus Cristo no meio de nós é confirmada de num modo que se pode chamar sacramental, pelo testemunho do sangue, da água e do Espírito (1Jo 5,7).

O conceito do cristão como filho de Deus, gerado e nascido de Deus. Na medida em que, desde já, é filho de Deus (3,1), o cristão ama os outros filhos de Deus (5,1), e o pecado já não toma conta dele.

– O discernimento cristão. Exprimindo, repetidamente, critérios para nossa vida e salvação em Cristo (“nisto sabemos/conhecemos”, 2,5; 3,1.24; 4,10.13, e.o.), a carta ensina uma vida cristã consciente (cf. o “discernimento dos espíritos”, 4,2).

– A vida cristã como atitude permanente e opção fundamental. 1Jo não ensina regras particulares. Ensina a guardar os mandamentos (o amor fraterno, sem entrar em detalhes, 2,3-11) e a discernir a atitude cristã fundamental, o “permanecer em Cristo”, isto é, em seu ensinamento, em sua comunidade e em sua prática de vida (cf. Jo 15,1-17).

5 A 2ª Carta de João

A Segunda Carta de João (2Jo) é um bilhete de amizade da parte do “Ancião” (ou Presbítero), dirigido a outra comunidade, que ele quer bem e chama de “Senhora Eleita” (título que se refere à eleição do povo de Deus). O Ancião se mostra preocupado com os falsos mestres que se apresentam à comunidade com um discurso que não promove a comunhão fraterna, nem a prática da justiça. Isso foi denunciado também na Primeira Carta de João, da qual a Segunda parece ser um resumo.

6 A 3ª Carta de João

Na Terceira Carta de João (3Jo), o “Ancião” (o mesmo de 2Jo) escreve a uma pessoa influente da comunidade, Gaio, para que continue a oferecer hospitalidade aos missionários itinerantes, aos quais um certo Diótrefes põe obstáculos, impondo-se, inclusive, aos demais fiéis. No fim, o autor louva a atitude de Demétrio, possivelmente um desses missionários itinerantes. Como a segunda, também esta terceira carta se destaca pelo tom carinhoso com que se dirige aos fiéis “na verdade” – termo usado em diversos sentidos. Como a carta de Paulo a Filêmon, 3Jo é um valioso testemunho das relações pessoais entre os primeiros cristãos.

7 A Carta de Judas

7.1 Origem e destinatários

A Carta de Judas (Jd) deve ser situada perto da Carta de Tiago, como mostra o sobrescrito: “irmão de Tiago” (Tiago Menor, veja Mc 6,3par e a exposição sobre Tiago feita anteriormente). Trata-se de “Judas, não o Iscariote” (Jo 14,11). Na lista dos apóstolos segundo Lucas (Lc 6,16 e At 1,13), aparece com o nome de “Judas [irmão?] de Tiago”, no lugar onde os outros evangelistas trazem o nome de Tadeu (Mc 3,18 e Mt 10,3-4) – daí ser chamado de Judas Tadeu.

A carta se destina aos “eleitos, amados em Deus e guardados para Jesus Cristo” em geral (1,1) e contém veemente crítica aos “ímpios” que se introduziram sorrateiramente na comunidade e a desmoralizam. Judas usa de toda a força retórica para desmoralizá-los, por sua vez.

7.2 Conteúdo

  • 1-2 Saudação
  • 3-4 Objetivo: combater os “intrusos”
  • 5-16 Os três castigos clássicos do Antigo Testamento (v. 5-7) devem ser aplicados a eles (v. 8-16)
  • 17-23 Exortação à comunidade
  • 24-25 Um “bendito” para terminar

7.3 Destaques

– A doutrina dos intrusos mencionados no v. 4 não nos é conhecida com exatidão. Eles dividiam e desmoralizavam a comunidade, além de se entregarem à imoralidade. A própria palavra “heresia” significa divisão. Não são tanto as ideias que causam heresia, mas o comportamento prático que divide a comunidade.

– O uso de escritos apócrifos na argumentação da carta. Estes escritos, muito populares no 1º século, tratam de assuntos bíblicos, sem pertencerem à Sagrada Escritura lida na sinagoga. Jd 6 e 12-16 aludem ao livro de Henoc, Jd 6-7 aos Testamentos dos Doze Patriarcas e Jd 9 à assunção de Moisés. Jd trata assim a religiosidade extrabíblica divulgada entre os judeu-helenistas com naturalidade e respeito, sem por isso canonizá-la.

– O autor compartilha a imaginação geral daquele tempo acerca da proximidade do Fim, e vê nos conflitos surgidos nas comunidades o sinal dos últimos tempos (v. 17-23). Apesar da severidade e dos termos violentos, transparece uma atitude pastoral prudente: quem é fraco deve ser tratado com compaixão, mas quem é orgulhoso, nem sequer se toque na roupa! (v. 22-23).

 Conclusão

As “Cartas Católicas” oferecem uma amostra da “unidade na diversidade” no âmbito das primeiras igrejas cristãs e são também hoje um exemplo da verdadeira catolicidade, unidade sem uniformização. Seu âmbito abrange igrejas desde Jerusalém e a Síria (Tiago) até Roma (1-2Pedro), passando pelo mundo da Ásia Menor (as cartas joaninas). Neste sentido, vêm completar a percepção que se colhe das cartas de Paulo e dos Atos dos Apóstolos. Para completar o panorama, cabe acrescentar a Carta aos Hebreus como amostra do aprofundamento da fé cristã no ambiente judeu-alexandrino culto.

A verdadeira catolicidade não é uniformidade, mas diversidade teológica e eclesiológica em torno do único Salvador Jesus Cristo e de seu único mandamento do amor a Deus encarnado no amor fraterno.

Johan Konings, SJ,  FAJE, Brasil – original português.

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[1] Este texto contém alguns trechos, com modificações, das introduções publicadas pelo mesmo autor na Bíblia Sagrada – Tradução Oficial, da CNBB (Brasília: Ed. CNBB, 2018).