Espaço litúrgico

Sumário

1 Definição

2 Evolução

2.1 Compreensão neotestamentária de templo

2.2 Era pré-nicena

2.3 Igrejas paleocristãs

2.4 Igrejas no Oriente cristão

2.5 Era carolíngia e o românico

2.6 O gótico

2.7 O Renascimento

2.8 O barroco

2.9 Pós-barroco

3 O lugar da assembleia celebrante

4 Teologia do espaço litúrgico

4.1 Qualidades identificadoras

4.1.1 O ambão

4.1.2 A fonte batismal

4.1.3 O altar

5 Referências

1 Definição

O espaço litúrgico é aquele edifício onde a Igreja realiza o seu culto e que, por feliz metonímia, recebe o seu mesmo nome, igreja. Esse edifício possui características próprias que o qualificam como lugar de culto, o que chamamos de qualidades identificadoras ou monumentos pascais, sendo os principais o altar, o ambão e a fonte batismal. Para além dessas qualidades identificadoras, o espaço litúrgico recebe em sua estética aspectos que lhe conferem a mistagogia cristã (ver Mistagogia). Disso decorre que o espaço litúrgico tem uma teologia, para além de uma história da evolução dos estilos arquitetônicos. Essa teologia e evolução arquitetônica revelam uma eclesiologia, em que a Igreja se compreende como imagem da Trindade através das três categorias eclesiológicas: Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo.

2 Evolução

2.1 Compreensão neotestamentária de Templo

Os primeiros cristãos tinham uma forte consciência de que o verdadeiro espaço sagrado era a comunidade dos discípulos de Cristo e cada fiel individualmente a exemplo do Mestre. De fato, em Jo 2,19-21, Jesus declara solenemente ser ele o verdadeiro templo que, destruído, erguer-se-ia em três dias, e João explica que Jesus falava do templo do seu Corpo. Tendo Jesus morrido, ressuscitado e subido aos céus, o seu Corpo é a Igreja (Ef 1,22-23; 4,15-16; 5,23; Cl 1,18; cf. 1Cor 12,12). Eles não tinham, portanto, a preocupação de possuir um lugar específico de culto como o tinham os judeus e muitos pagãos. De fato, o lugar de adorar a Deus não é mais sobre a montanha de Sicar, na Samaria, e tampouco em Jerusalém, mas em espírito e verdade (Jo 4,21-23). Assim sendo, os discípulos de Jesus se reuniam na casa de algum deles que possuía um imóvel capaz de abrigar bom número de pessoas (Lc 22,7-13; At 2,46; 12,12; At 20,7-12; 1Cor 16,19; Fm 1,2). Contudo, isso era principalmente para o específico do culto cristão, porque, por algum tempo, eles costumaram ir diariamente ao templo de Jerusalém (At 2,46) e os apóstolos pregavam também nas sinagogas (At 9,20) até serem delas expulsos. É preciso, porém, considerar que algumas sinagogas, onde tenha havido conversão em massa de judeus inclusive dos chefes, tenham se tornado lugares de culto cristão (Mc 5,22; Tg 2,2; o Sacramentário Gelasiano Antigo traz orações de consagração de lugares de culto que antes foram sinagogas (GeV 724-729).

2.2 Era pré-nicena

Entretanto, o número dos fiéis aumentava entre a paz ou as perseguições; fizeram-se, então, necessários lugares maiores para abrigar as comunidades cristãs, o que já começava a ganhar certos aspectos da nova realidade. Que os cristãos se reunissem nas catacumbas para celebrarem o culto dominical em épocas de perseguição é um tanto controverso, porque suas condições eram tão insalubres que os impediam de ali permanecerem por muitas horas, além de suas dimensões não acolherem sequer cinquenta pessoas (KRAUTHEIMER, 1986, 30). De modo que já começam a surgir no séc. II edifícios com uma sala ampla com espaços definidos para o clero e para os demais fiéis, o que ficou conhecido como domus ecclesiae. A mais conhecida é o domus ecclesiae de Dura Europos, atualmente Qalat es Salyhiye, na Síria, datada entre os anos 231 a 265 (KRAUTHEIMER, 27; LASSUS, 11863; HOPKINS, 116).

2.3 Igrejas paleocristãs

No séc. IV, os cristãos conquistam liberdade de culto reconhecida pelo imperador Constantino, com Edito de Milão, de 313. Por ordem do imperador, várias igrejas são edificadas por quase todo o Império Romano. A mais antiga de que se tem notícia é a Catedral de Tiro, na Fenícia, inaugurada aproximadamente em 316, da qual Eusébio de Cesareia nos fornece uma descrição pormenorizada, inclusive com uma interpretação simbólico-teológica. Entretanto, nesse momento de liberdade, a grande questão era que arquitetura adotar na edificação das igrejas. A escolha cai sobre a basílica romana, uma adaptação da basílica grega para abrigar grandes multidões. A basílica romana se caracteriza por sua forma retangular e com dupla simetria: na longitudinal, duas filas de colunas uma frente à outra e nas transversais, duas absides, também uma frente à outra, criando assim um centro único e precioso. O arquiteto cristão, porém, suprime uma das absides, eliminando assim aquele centro único, que é função do edifício, propondo-lhe um caminho, o do homem (ZEVI, 2009, 71). Por caminho do homem entende-se a trajetória do observador, ou seja, o cristão deu aos esquemas da basílica romana uma alma e uma função, de modo que o eixo do edifício se tornou uma metáfora do caminho a ser percorrido pelo homem rumo à parusia, representada pela abside única. A organização interna da basílica, porém, segue o esquema sinagogal (BOUYER, 15). Contudo, advirta-se que o estilo basilical não foi único, embora predominante; a basílica de São Vital, em Ravena, por exemplo, tem planta redonda. A todo esse conjunto de estilos, hoje, se chama paleocristão.

2.4 Igrejas no Oriente Cristão

Na Síria, as basílicas se distinguiam fortemente das de tradição ocidental pelo ambão. Este era uma construção monumental no centro do edifício, com a cadeira presidencial para o bispo, ladeada por assentos para os presbíteros e demais ministros e, de cada lado, uma estante para a leitura da Epístola e do Evangelho. Toda a liturgia da Palavra se dava nesse ambão, que se costuma chamar de Bema; na tradição ocidental, o ambão, embora também central, era de dimensões menores e servia apenas como lugar da proclamação da Palavra, a homilia se dava no presbitério. Terminada a liturgia da Palavra nas igrejas sírias, o bispo e seus presbíteros se dirigiam através de uma passarela para o presbitério-abside para a liturgia eucarística. O altar ficava muito próximo dos fundos da abside e escondido por um pesado cortinado, de modo que a assembleia ouvia, mas não via o que se passava. Na tradição bizantina, esse cortinado deu lugar à iconóstase, uma parede ricamente decorada com ícones e com três portas; na tradição latina, porém, o altar sempre foi visível à assembleia. A fonte batismal, via de regra, era edificada fora da basílica.

2.5 Era carolíngia e o românico

À era arquitetônica paleocristã sucede o chamado estilo carolíngio. Um belo exemplo é a parte original da Capela Palatina de Aquisgrana (Aachen, Al.), encomendada por Carlos Magno no século IX. A planta é redonda, como a de São Vital em Ravena, mas aprofunda fortemente o presbitério. As colunas italianas suportam o peso da abóbada de pedra, o que antecipa a influência bizantina. Em Roma, porém, segue o estilo basilical, mas já com grande influência bizantina, como é o caso de Santa Inês (séc VII) e Santa Praxedes (séc. IV). Esse ambiente arquitetônico serviu de preparação para o famoso e imponente estilo românico, que se imporia por quase todo o Ocidente a partir do séc. X. De fato, trata-se da combinação dos diferentes estilos que surgiram na Europa Central na segunda metade do primeiro milênio e, sobretudo, da evolução das construções difundidas na Itália setentrional por influência da arquitetura bizantina, a partir do séc. VII. O românico foi primeiro acolhido nas igrejas monásticas e, devido a grande presença dessas na vida eclesial, espalhou-se por toda a Europa. Essas igrejas monásticas tinham três naves e, nas laterais, construía-se uma abside um pouco menor do que aquela central. As igrejas românicas tinham paredes muito espessas e cegas, porque todo o peso da abóbada se descarregava sobre elas; sobre a porta principal e ou na abside, abria-se uma rosácea que projetava a luz do sol sobre o altar. Já não mais se construíam o ambão, pois nessa época o latim já deixava de ser língua vernácula, mas apenas de uso litúrgico, de modo que o povo já não compreendia a liturgia, mas apenas participava assistindo passivamente aos ritos sagrados. O ambão continuou em uso apenas na península itálica, como é o caso da catedral de Pisa, na Itália. Com o desuso do ambão, toda a atenção da assembleia recai sobre o altar do sacrifício eucarístico. Doravante, o que mais importa é a presença real de Cristo na hóstia consagrada que todos os fiéis querem ver.

2.6 O gótico

O gótico surge na França no séc. XII e, como por essa época esse país se desponta como grande potência cultual e política, esse estilo se difundirá rapidamente por quase toda a Europa. Na Península Itálica teve pouca influência e, na Ibérica, devido à difícil transposição dos Pirineus e forte domínio islâmico, só chegaria no séc. XIV. Eram tempos de constantes guerras e duras pestes; neste ambiente, o gótico foi a melhor expressão da espiritualidade medieval. De fato, a necessidade humana de pedir proteção a Deus e aos seus Santos e de lhes render graças e louvores, fizera com que tudo apontasse para o alto, as moradas celestes. Por isso, o gótico é agudo, lança para o alto com a leveza das estruturas vazadas, conseguindo encher o interior de luz através de seus grandes vitrais. A estrutura gótica é o resultado da fusão de duas técnicas arquitetônicas há tempo já conhecidas, de modo que os mestres de obra franceses conseguem plasmar o perfil desse novo estilo dando solidez às suas realizações. Disso surgem os dois traços principais do gótico, ou seja, o arco ogival que livra os construtores das dificuldades da abóbada de base quadrada; e o fato de não serem mais as paredes que suportam o peso do teto e das abóbadas, pois o delgado esqueleto dos contrafortes, que se prolonga nas nervuras das meias-colunas e dos arcobotantes, transfere a carga para os contrafortes externos, de modo que as espessas paredes dos estilos precedentes se tornam supérfluas e, no lugar delas, enormes janelas estendem seus vitrais de um pilar a outro, elevando-se até as abóbadas. Enquanto espaço de culto, o gótico traz a novidade dos púlpitos por influência das Ordenas Mendicantes que, preocupadas com a ignorância dos fiéis, usam-no para instruí-los, enquanto um sacerdote dizia a missa a baixa voz. Também leva a fonte batismal para dentro da igreja, numa capela próxima à porta frontal, uma vez que o batismo de grande número de pessoas, sobretudo adultas, já era uma realidade há séculos quase inusitada. Doravante, mormente, batizam-se crianças.

2.7 Renascimento

No séc. XV surge, na Itália, o estilo renascentista, que se caracteriza culturalmente pelo antropocentrismo, o classicismo e a ligação com o mecenato. O antropocentrismo busca nas artes as devidas proporções dos componentes do edifício e das representações pictóricas e estatuárias. Deste modo, o artista renascentista prefere os edifícios de planta centrada aos de forma basilical. Os renascentistas se inspiram no templo pagão romano antigo, estilo rejeitado pelos cristãos antigos. O ideal de beleza do classicismo antigo volta com toda a sua força na essencialidade da arquitetura renascentista, no equilíbrio e no nu dos heróis idealizados, exaltando a anatomia e o vigor muscular como, por exemplo, nas estátuas de Davi em Florença e de Moisés em Roma. Em tudo isso se percebe que as igrejas renascentistas não são pensadas em primeiro lugar como espaço para acolher a assembleia dos fiéis para o louvor de Deus, mas para a exaltação das artes e a satisfação do gosto do mecenas. Além disso, os vitrais, tão caros ao gótico, considerados como “Bíblia dos iletrados”, dão lugar às janelas transparentes, com o intuito de se conseguir mais luz para o destaque da decoração.

2.8 O barroco

Também em solo italiano, surge o estilo barroco, que ganha grande impulso no mundo católico depois da Reforma de Martinho Lutero e, sobretudo, com o Concílio de Trento (1545-1563). A Reforma Tridentina rejeita o estilo renascentista devido à influência do paganismo do classicismo romano, mas os arquitetos não tardariam em retomar os edifícios de planta centrada que sobrevive e, às vezes, se funde com a planta basilical. Com sua suntuosa ostentação, o barroco serviu bastante ao triunfalismo católico pós Trento. O barroco se preocupa muito com a aparência, conferindo assim uma importância cada vez maior à fachada com a sobreposição de estátuas, pilares, colunas e pilastras, alternância e mescla de superfícies de paredes côncavas e convexas que lhe conferem um aspecto alegre e imponente, além de formar ondulações, que vibram ritmicamente, transmitindo seus movimentos ao espaço interno. Essas formas arquitetônicas se juntam à abundância pictórica e estatuária criando um movimento sempre ascendente, para o destino dos fiéis em Cristo. O dourado é abundante e as demais cores são vivas nas pinturas que, ao contrário dos estilos paleocristãos e medievais, que eram preferentemente anamnéticos (cenas bíblicas, aspectos da vida de Cristo, da Virgem e dos Santos), preferem temas escatológicos tais como a assunção da Virgem e dos Santos e a representação do paraíso. A representação teatral se mostra em uma espécie de espetáculo sagrado, um jogo entre o visível e o invisível.

O cruzeiro, que separa o presbitério com seu altar mor da nave central, no barroco muitas vezes, se compõe de quatro arcos, sobre os quais se apoia a cúpula. Esta cúpula é algo bem particular, porque recebe em sua base um tambor cheio de janelas e, no seu cume, uma lanterna também com janelas que deixam entrar abundante luz. Esta se projeta sobre o altar mor, foco da atenção da assembleia por ser o lugar da transubstanciação, portanto da presença real de Cristo. A cobertura das igrejas barrocas recebe rica representação pictórica e graças à sua perspectiva, os artistas conseguem substituir a elevação do gótico por uma ilusão de ótica de uma pintura que dá o mesmo sentido, ou seja, elevar à morada divina. Essa elevação em perspectiva da igreja faz com que o céu se abra sobre a terra, de modo que Deus com seus Anjos e Santos desça à igreja, que se torna casa de Deus. Contemplando o céu e o gozo futuro, o cristão barroco cresce no desejo de um dia lá chegar.

Nas Américas, o barroco foi o primeiro estilo eclesial conhecido. Longe das disputas entre católicos e protestantes, o barroco nas Américas, sobretudo na que hoje chamamos Latina, não tem conotações ideológicas. Teve que encontrar novas técnicas e adaptação do material aqui encontrado, como, por exemplo, o uso abundante de pedra sabão na região central do Estado de Minas Gerais no Brasil, ou de outro tipo de pedra em cidades importantes das colônias lusitana e espanhola. Usou-se também a madeira e a douradura foi semelhante a da Europa, devido à abundância do precioso metal. Uma particularidade do barroco tanto no velho quanto no novo Continente, foi a pertença dos altares laterais às Confrarias ou Ordens Terceiras ligadas a alguma Ordem Religiosa.

2.9 Pós-barroco

No final do séc. XVIII, por influência do Iluminismo europeu, o barroco caiu em desuso na construção das novas igrejas, cedendo lugar aos temas clássicos da Grécia antiga, berço da filosofia ocidental. Surge, então, o estilo que ficou conhecido como neoclássico. A reação a este estilo não tardaria no mundo católico, de modo que, no séc. XIX, os tradicionais estilos europeus voltariam na forma de neogótico e neorromânico e, por vezes, um híbrido desses estilos que resultaria no eclético. Hoje, sobretudo depois do Concílio Vaticano II, reina a liberdade e a criatividade dos arquitetos e o diálogo com a índole dos povos cristãos.

3 O lugar da assembleia celebrante

Na antiguidade, a preocupação primeira ao conceber o espaço litúrgico era a assembleia que celebra, embora a hierarquia dos ministérios já estivesse bem concebida. Toda a assembleia de iniciados participava da celebração, mas os catecúmenos e os penitentes participavam somente da liturgia da Palavra e eram despedidos antes do início da celebração da Eucaristia, o que ficou conhecido como “disciplina do arcano”. Na Idade Média, porém, dá-se uma separação entre clérigos e monges, de um lado, e leigos, de outro. Esses primeiros eram o pessoal especializado do culto e os leigos meros espectadores. Surge, então, uma balaustrada que separava essas duas classes de cristãos: leigos espalhados pela nave central e clérigos ou monges no presbitério-santuário. Tudo isso foi consequência do esquecimento da categoria eclesiológica “Povo de Deus”, tão cara ao Novo Testamento e à era Patrística. Do fim da Idade Média até o Movimento Litúrgico, precursor do Vaticano II, somente a categoria “Corpo de Cristo” reinaria absolutamente, mas, mesmo assim, ela se concentrava mais na Eucaristia, de modo que toda a atenção da assembleia era projetada no altar do sacrifício. É natural que, nesse ambiente eclesiológico, a devoção dos leigos à Virgem e aos Santos crescesse muito e os altares laterais surgissem ao longo das naves laterais para servirem a essa devoção. O espaço litúrgico se reduz, portanto, ao presbitério-santuário: lugar onde se reza o Ofício Divino e se celebra a Eucaristia.

4 Teologia do espaço litúrgico

A definição teológica da Trindade é bem posterior aos escritos neotestamentários, mas é nesses escritos que ela encontra os seus sólidos fundamentos. Ora, a comunidade dos discípulos de Jesus é concebida como imagem da Trindade através das três categorias eclesiológicas: Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo; e o edifício eclesial, por sua vez, é concebido à imagem da comunidade que ele abriga. O Mistério Trinitário só pode ser concebido a partir do Mistério Pascal, que se revela na morte-ressurreição de Cristo e Pentecostes, pois o Espírito Santo é o grande dom da Páscoa. A igreja edifício eclesial, por ser imagem da Igreja Comunidade dos discípulos, não pode ser concebida apenas como uma edificação que visa a proteger os fiéis das intempéries, mas deve sempre levar em consideração que é lugar de reunião da assembleia do Povo de Deus, do Corpo de Cristo e do Templo do Espírito Santo para celebrar o Mistério Pascal, não somente na Eucaristia, mas também nos demais sacramentos, na Liturgia das Horas e nos sacramentais. O espaço litúrgico é, portanto, o lugar onde os fiéis celebram o Mistério do Deus Trindade revelado na Páscoa de Cristo.

4.1 As qualidades identificadoras do Espaço Litúrgico

O arquiteto, ao projetar o edifício eclesial, salvaguardada a sua liberdade criativa, deve imprescindivelmente ter em mente os seguintes critérios: o conforto e participação da assembleia nos sagrados mistérios, os lugares dos ministros (cadeira presidencial, bancos para os acólitos e leitores, lugar dos cantores), funcionalidade para o desenvolvimento do culto, acústica e iluminação; mas, respeitado tudo isso, o que qualifica o edifício como lugar do culto cristão é o ambão, a fonte batismal e o altar. São esses três elementos litúrgicos que, com sua mistagogia, ajudam os fiéis a se autocompreenderem como Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo, povo renascido e congregado na Páscoa de Cristo.

4.1.1 O ambão

O ambão é o lugar da proclamação da Palavra de Deus, que encontra o seu ápice com o evento Cristo (Hb 1,1-2), especialmente sua Páscoa. Por ser o lugar da proclamação da Palavra de Deus, o ambão acentua teologicamente a categoria eclesiológica Povo de Deus. É o povo da nova Aliança, convocado e reunido pela Palavra. Este fato o põe em continuidade com o povo da antiga Aliança que, por sua vez, tinha como centro de sua fé a Lei e os Profetas, portanto a Palavra de Deus. O ambão, enquanto lugar por excelência da proclamação da Páscoa, remete ao sepulcro vazio, de onde os anjos anunciam às piedosas mulheres a ressurreição de Cristo. Esse fato diz que a ressurreição não é uma mera interpretação do sinal do sepulcro vazio, mas sim que se trata de uma revelação divina. Isso explica por que, em muitas igrejas, o ambão recebe como ícone a imagem de um ou dois anjos (Mt 28,6; Mc 16,5-6 e Lc 24,23 respectivamente). Por ser lugar da proclamação do Evangelho, cume da liturgia da Palavra, o ambão pode também receber esculturas dos quatro animais do Apocalipse: (homem; leão, touro e águia), segundo a interpretação patrística.

Em Cristo, todo o batizado é profeta, sacerdote e rei; o ambão é, pois, o lugar onde ele exerce o seu ser profeta. De fato, a proclamação da Palavra de Deus na liturgia não é uma mera leitura que o ministro faz para a assembleia, mas um verdadeiro e próprio diálogo entre Deus e a assembleia de seus fiéis: Deus fala a seu povo pelo profeta (leitor) e a assembleia responde com salmos e orações. No ambão se dá, pois, esse diálogo. Não se trata, portanto, de uma simples narrativa de fatos passados, mas de uma verdadeira atualização da manifestação de Deus aos seus eleitos. Nesse sentido, o ambão é também lugar anamnético da História da Salvação, uma vez que na anamnese litúrgica o passado se atualiza, no aqui e agora da celebração, e desponta para a Parusia. Isso dá ao ambão características de monumento, lugar do não esquecimento, da memória e, como o momento culminante da História da Salvação é o Mistério Pascal, o ambão é monumento pascal. Esta estrutura teológica sugere para o ambão uma estrutura física – forma e robustez – de um verdadeiro monumento. Sua elevação com relação ao piso da nave revela que a Palavra vem do alto reforçando assim a ideia de diálogo e, portanto, da força performática da Palavra proclamada.

4.1.2 A fonte batismal

A fonte batismal atrai para si a categoria eclesiológica “Templo do Espírito Santo”, pois, como outrora o Cristo recebeu o Espírito ao ser batizado nas águas do Jordão, hoje o cristão O recebe ao sair da fonte batismal. É na fonte de água viva que ele se torna Templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17), o que equivale a dizer que, doravante, ele andará sob a ação do Espírito, pois foi enxertado no Corpo de Cristo e introduzido no Povo de Deus. Na Carta aos Romanos, Paulo faz uma bela e profunda reflexão sobre o batismo, sugerindo que se trata de morte e ressurreição com Cristo (Rm 6,1-14), de modo que, na fonte batismal, o fiel experimenta sacramentalmente o que Cristo viveu em sua Páscoa. Assim sendo, o gesto de entrar na água e dela sair simboliza a morte e a ressurreição. Esta estrutura teológica requer que a fonte batismal tenha dimensão capaz de receber uma pessoa mesmo adulta em seu interior, porque o batismo por imersão é o símbolo mais eloquente, embora a Igreja admita também a forma da ablução. Em seu Evangelho, João fala de água viva (Jo 4,10-11; 7,37-38), o que se expressa melhor pela água corrente e não a parada. De fato, já no AT a água corrente é sinal de vida, enquanto a parada é sinal de morte (Jr 2,13). Isso sugere que na fonte batismal haja uma instalação hidráulica para o movimento da água: é a estrutura física a serviço da estrutura teológica. Por seu caráter de lugar anamnético da Páscoa de Cristo (o que acontece na experiência do catecúmeno-neófito), a fonte batismal é também monumento pascal e requer, assim como o ambão, dimensão e solidez próprias de um monumento. Batismo e Crisma, embora hoje sejam ministrados em momentos diferentes em caso da iniciação da criança, na realidade são dois sacramentos intimamente associados, a unção é consequência do banho, por isso pode-se dizer que é na fonte batismal que o cristão se é ungido rei em Cristo.

4.1.3 O altar

O altar atrai para si a categoria eclesiológica “Corpo de Cristo”. Esta categoria se expressa na dupla dimensão do altar, mesa da ceia e lugar do sacrifício, portanto é elemento mimético e anamnético (Lc 22,19; 1Cor 11,25-26). Enquanto lugar mimético, o altar é onde os cristãos se alimentam com o Corpo e o Sangue do Senhor, e como lugar anamnético se faz memória de seu sacrifício redentor, de sua Páscoa, corpo entregue e sangue derramado no altar da cruz. Mesa e altar são duas realidades que se completam, pois na última ceia, Jesus desvela a seus discípulos o sentido do evento do dia seguinte, sua morte. A crueldade da sexta-feira ganha sentido na ceia: a entrega de Jesus é livre e cheia de amor pela humanidade, obediência ao projeto salvífico do Pai até à morte e morte de cruz. Ambas as coisas são feitas por mandato de Cristo e são dois momentos de um único Mistério Pascal, o que é celebrado no altar da Eucaristia.

Contudo, surge a questão de saber qual das duas dimensões deve definir a estética do altar: mesa ou lugar do sacrifício. Na nomenclatura tradicional católica prevalece o termo altar, portanto lugar de sacrifício. A Igreja faz memória do sacrifício de Jesus, deixando claro que não se trata de um novo sacrifício, mas do sacramento daquele único de Jesus no altar da cruz (Hb 10,18); ao reapresentar ao Pai o sacrifício de Jesus, a Igreja se une a ele e se oferece a si mesma como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12,1). Pode-se dizer que pelo seu rito os cristãos se inserem no sacrifício único de Cristo e, com ele, oferecem a si mesmos. Essa oblação define o altar como lugar de sacrifício. Isso, porém, acontece dentro de uma ceia, mas esta se expressa no gesto de os cristãos se aproximarem do altar e se alimentarem com o corpo e sangue de Cristo. O altar se expressa como lugar de sacrifício por sua estética e como mesa pela gestualidade do comer e beber. Em ambos os casos, o altar se impõe como monumento pascal: ceia e sacrifício em memória de Cristo. Na definição da forma e do material vale, pois, o que acima foi dito para o ambão e retomado para a fonte batismal. Vale ainda dizer que a situação do altar e a acessibilidade a ele é o que vai expressar aos fiéis o exercício de seu sacerdócio batismal em Cristo.

Marco Antonio Morais Lima, SJ. UNICAP, Recife, PE (Brasil). Texto original em português.

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