Eclesiologia

Sumário

1 Dificuldades atuais da Igreja

2 Princípios sociológicos e teológicos para compreender a Igreja

3 Fundamentos bíblicos da Igreja

4 Os três milênios eclesiológicos

4.1 Primeiro milênio: Igreja, mistério de comunhão

4.2 Segundo milênio: Igreja de Cristandade

4.3 Terceiro milênio: Igreja que volta a suas origens e se abre aos sinais dos tempos

5 Linhas de força da eclesiologia

6 Desafios para a Igreja do futuro

7 Referências bibliográficas

Antes de começar a refletir sobre a matriz eclesiológica, gostaríamos de dizer, para ser honestos, que nosso horizonte eclesiológico é aberto e, embora apresente a eclesiologia desde a perspectiva católica, poderá ser enriquecido ecumenicamente por outras abordagens eclesiológicas protestantes, anglicanas e ortodoxas.

1 Dificuldades atuais da Igreja

Depois do entusiasmo eclesial do século XIX (Vaticano I) e de inícios do XX, que culminou no concílio eclesiológico Vaticano II, seguiu um tempo de crise eclesial, expressado em formulações como “Cristo sim, Igreja não”, “crença sem pertença eclesial”, “espiritualidade sim, mas instituição não”, “cristãos do átrio”, “inverno eclesial”, “todas as religiões são iguais” etc.

Os motivos são numerosos e variados: escândalos sexuais de ministros da Igreja e escândalos econômicos das finanças vaticanas, pouco respeito aos direitos humanos dentro da Igreja, estreiteza de visão do magistério moral, patriarcalismo, autoritarismo e centralismo hierárquico, aliança da Igreja com os poderosos etc. Em todos estes casos se identifica a Igreja com a hierarquia (papa, cúria vaticana, bispos, presbíteros), embora  não esteja constituída apenas pela hierarquia, nem seja o Reino de Deus, nem  possa substituir a Jesus Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo  14,6). A Igreja também não tem a exclusividade do Espírito, pois ele também age fora da Igreja nas culturas e religiões. O que é, então, a Igreja?

2 Princípios sociológicos e teológicos para compreender a Igreja

Do ponto de vista sociológico, qualquer iniciativa pessoal, tanto de ordem política quanto cultural e religiosa, não pode ser duradoura se não se institucionaliza, pois toda instituição precisa de um centro de unidade e governo. Sem a institucionalização comunitária, eclesial, o movimento iniciado por Jesus de Nazaré teria desaparecido.

No entanto, teologicamente, é preciso ir além: Deus é um mistério de comunhão, é uma comunidade trinitária e seu projeto de salvação (o Reino de Deus) é comunitário no seu conteúdo (filiação divina e fraternidade humana) e encarnatório (se realiza em Cristo). Desta maneira, o desígnio divino se realiza na história impulsionada pela ação do Espírito nas comunidades: o Israel do Antigo ou Primeiro Testamento, a comunidade de Jesus e seus discípulos, a Igreja comunidade visível e encarnada na história da humanidade. Seu centro é o mandamento do amor, o amor trinitário que se abre e comunica à humanidade.

A Igreja não é uma ideologia, mas um fato histórico. Por isso, não é possível compreender a Igreja sem recorrer à história da Igreja. No entanto, a Igreja não é apenas um problema, mas um mistério que só pode ser acessado a partir da fé. E, por ser um mistério ligado ao mistério trinitário (LG I), a Igreja nunca pode ser plenamente apreendida nem definida. Assim, coexistem, tanto na Escritura quanto na Tradição teológica, diversas reflexões sobre a Igreja (ou eclesiologias), que não são excludentes nem contraditórias, mas que se complementam e enriquecem mutuamente. Por esta mesma razão, procuraremos nos aproximar metodologicamente da Igreja desde seus diversos momentos históricos, desde as diversas eclesiologias que têm  aparecido. Não apenas a partir das eclesiologias oficiais, mas também das eclesiologias que têm surgido da base do Povo de Deus e mais concretamente da América Latina.

3 Fundamentos bíblicos da Igreja

Sem entrar na questão da relação da Igreja de Jesus com as outras religiões (matriz cf. diálogo inter-religioso), podemos dizer que a igreja cristã tem uma longa pré-história no Primeiro Testamento: do plano comunitário de salvação de Deus contido  simbolicamente nos 11 primeiros capítulos do Gênesis (comunidade inter-humana, cósmica e religiosa) e que parece fracassar depois de Babel (Gn 11), Deus escolhe Abraão para que seja cabeça de um povo que lhe sirva com fidelidade e pratique a justiça, de modo que seja luz para todas as nações (Gn 12,1-3;18,18). Este povo,  libertado por Deus, através de Moisés, da escravidão do Egito (Ex 14), será o Povo de Deus, com quem Yahweh estabelecerá uma estreita aliança (Ex 20). Contudo, o Povo de Deus, que passou da época da confederação tribal à monarquia, quebrou muitas vezes essa aliança, sobretudo no tempo da monarquia e, apesar da voz crítica dos profetas, terminou no exílio (Sl 137). Yahweh o salva de novo, e do exílio surge um resto de Israel fiel a Deus, os pobres de Yahweh (anawim), do qual brotarão João Batista, Maria e Jesus. No Antigo Testamento, já se prefigura e prepara a Igreja do futuro (LG 2).

Jesus pertence ao povo de Israel e, com sua vida, morte e ressurreição, abre um horizonte novo; forma uma comunidade de discípulos (Mc 3,13-19 e paralelos) para renovar Israel: os doze representam as doze tribos de Israel; depois da Páscoa e Pentecostes, esses discípulos constituíram a base da comunidade cristã, da Igreja (ver cristologia).

O Novo Testamento pressupõe a existência de comunidades cristãs e recolhe as reflexões e exortações pastorais das primeiras testemunhas de Jesus em torno às diversas comunidades cristãs; o Novo Testamento se origina na tradição viva da Igreja que antecedeu os escritos. O Espírito ilumina e inspira os escritores em função da formação da Igreja. No Novo Testamento, não há uma eclesiologia sistemática, mas uma pluralidade de vivências pastorais e de reflexões eclesiológicas.

Para Paulo, a Igreja é Povo de Deus (Rm 11), Corpo de Cristo (1Cor 12,13) e Templo do Espírito (1Cor 3,16). As Cartas pastorais, escritas em um momento posterior,  apresentam a Igreja como Casa de Deus (1Tm  3.5.15), que deve manter a fidelidade  doutrinal e a estrutura ministerial de governo. As Cartas do cativeiro veem a Igreja como Cabeça de Cristo (Cl 1,18) e Esposa do Senhor (Ef 5,21-23). Lucas – no seu evangelho – e, sobretudo, nos Atos dos Apóstolos, nos apresenta o tempo da Igreja (At 1,8) que prossegue e leva adiante o tempo de Jesus, sob a força do Espírito. Para Mateus, a Igreja é o verdadeiro Israel (Mt 21,33-46), dentro do qual Pedro é o rochedo e possui as chaves do Reino (Mt 16,19). A tradição joanina reflete uma dimensão mais pessoal da fé como adesão a Cristo, mas não faltam imagens com ressonância eclesial como o bom pastor (Jo 10), a alegoria da videira (Jo 15) e a parábola eclesial da pesca milagrosa que culmina com o encargo a Pedro de apascentar as ovelhas (Jo 21). A 1ª Carta de Pedro se dirige a uma comunidade cristã em situação de diáspora e a anima recordando-lhe que é Povo de Deus, linhagem escolhida e sacerdócio santo (1Pd, 2,9-10). A Carta de Santiago salienta a prioridade dos pobres na Igreja (Tg 2,1-7). A Carta aos Hebreus apresenta Jesus como o sacerdote fiel e compassivo, que nos abriu a entrada ao santuário do céu (Hb 9). Apocalipse quer consolar e animar uma Igreja em situação de perseguição pelo Império romano e oferece imagens femininas da Igreja: a mulher que vence o dragão (Ap 12), a Esposa do Cordeiro (Ap 19), a Nova Jerusalém (Ap 21).

Através destes diversos escritos, aparecem os traços essenciais da Igreja do Novo Testamento: uma comunidade que vive uma radical igualdade e fraternidade entre todos seus membros, com pluralidade de carismas e ministérios, um dos quais é o governo que vela pela unidade de fé e a comunhão. É uma comunidade centrada em Cristo e no Espírito, uma comunidade encarnada na história que caminha para o Reino de Deus seguindo o estilo pobre e simples de Jesus de Nazaré, uma comunidade na qual os pobres ocupam um lugar privilegiado, uma comunidade que anuncia a boa nova do evangelho de Jesus, celebra a fracção do pão e serve o mundo inteiro.

4 Os três milênios eclesiológicos

Não basta conhecer a eclesiologia bíblica, nem a Igreja que Jesus queria, também é preciso conhecer como a Igreja se desenvolveu na história através dos séculos. Podemos distinguir três milênios eclesiais e eclesiológicos.

4.1 Primeiro milênio: Igreja mistério de comunhão

É a passagem da Igreja Apostólica à Igreja pós-apostólica, quando a experiência de Jesus é refletida no Novo Testamento, a comunidade se organiza e se estrutura internamente (bispos, presbíteros, diáconos). Abre-se a todos os povos e culturas, reage e se defende frente às heresias trinitárias e cristológicas, padece perseguições e martírio.  A mesma que, sobretudo depois da paz constantiniana, está dotada de grandes santos que também são pensadores e escritores, os denominados Padres da Igreja. Esta Igreja possui um impulso que durará até o ano mil.

É uma Igreja que se concebe como mistério de comunhão, comunhão trinitária, comunhão eucarística, comunhão fraterna e pastoral, comunhão solidária com os pobres. A reflexão teológica, a eclesiologia, é mais vital, pastoral, bíblica e litúrgica que sistemática. A Igreja se introduz no credo no terceiro artigo sobre a fé no Espírito, para expressar que ela existe sob a força do Espírito que a santifica, unifica, a mantém fiel à tradição apostólica e aberta à universalidade católica: por isto se proclama una, santa, católica e apostólica.

Foram desenvolvidas pastoralmente algumas imagens da Igreja, como a lua que brilha, não com luz própria, mas pela luz do sol que é Jesus; a barca de Pedro, que atravessa o mar do mundo, guiada pelo piloto que é Cristo e pela força do Espírito; a Igreja que é santa e pecadora, casta e prostituta, nunca abandonada pelo Espírito. É uma Igreja que vive fortemente a dimensão local, mas reconhece a primazia na caridade da Igreja de Roma, uma sede santificada pelo martírio de Pedro e Paulo. É uma Igreja participativa e ativa que procura resolver as tensões internas com espírito de diálogo e que faz da eucaristia o lugar de comunhão eclesial: a Igreja faz a eucaristia, a eucaristia faz a Igreja.

4.2 Segundo milênio: Igreja de Cristandade

Ainda que a Cristandade esteja enraizada no tempo de Constantino e Teodósio (séc. IV), ela não se consolidou definitivamente até o século XI, com a reforma de Gregório VII, que, para defender a liberdade da Igreja contra os senhores feudais, centraliza a Igreja e reforça a autoridade papal, em detrimento das igrejas locais e da participação da comunidade. É uma Igreja fortemente clerical, juridicista e triunfalista. A eclesiologia sistemática nasce no século XIV como defesa do poder papal (o sol) contra o imperador (a lua).

Nesta Igreja, começa a divisão entre clérigos e leigos, a ruptura entre a Igreja Ocidental Latina e a Igreja do Oriente, entre a Igreja Romana e as Igrejas da Reforma, entre a Igreja e a sociedade moderna ilustrada. Esta tendência autoritária e fechada ao mundo secular aumenta depois da Revolução Francesa (séc. XVIII), se consolida no Concílio Vaticano I (séc. XIX) e atingirá o seu auge com o pontificado de Pio XII. É certamente a Igreja das catedrais e das sumas teológicas, uma Igreja com grandes santos e santas, místicos e místicas, mas é também a Igreja das cruzadas, da Inquisição, e das guerras de religião entre cristãos.

Neste segundo milênio não faltam movimentos proféticos que pedem um retorno às origens evangélicas: o monacato, os movimentos de leigos dos séculos XI ao XIII, os mendicantes, a Reforma, os bispos e missionários do século XVII defensores dos indígenas na América Latina, a minoria teológica do Vaticano I, que postulava uma Igreja mais comunitária, pneumatológica e trinitária. Em meados do século XX, surgem, no contexto ocidental europeu, uma série de movimentos teológicos e pastorais  (movimento bíblico, litúrgico, patrístico, ecumênico, social…) que se cristalizarão no Vaticano II, convocado por João XXIII; o Vaticano II representa uma mudança de modelo eclesial, é o fim da Cristandade, é a passagem à Igreja do Terceiro milênio.

4.3 Terceiro milênio: Igreja que volta a suas origens e se abre aos sinais dos tempos

O Concílio Vaticano II (1962-1965) é um verdadeiro Pentecostes eclesial que recupera a dimensão comunitária da Igreja de comunhão e dialoga com a sociedade moderna. De Igreja clerical passa a ser Igreja Povo de Deus (LG II); de Igreja juridicista passa a ser Igreja mistério e sacramento de unidade entre Deus e a humanidade (LG I, 1, 9, 48); de Igreja triunfalista passa a ser uma Igreja que peregrina em direção à escatologia (LG VII). A eclesiologia do concílio é uma eclesiologia de comunhão. Uma série de reformas conciliares configura um tempo de primavera eclesial que não durou muito, pois os movimentos reacionários e fundamentalistas que queriam voltar à Igreja de Cristandade (como Lefèbvre) junto ao exagero de alguns grupos extremistas provocaram fortes tensões eclesiais e, de Roma, começa um recuo e freio do Vaticano II, por medo de rupturas internas e, sobretudo, por temor que a Igreja perdesse sua identidade cristã. Iniciou-se, assim, um longo inverno eclesial, uma hermenêutica da continuidade do Vaticano II, muito afastada do aggiornamento ou atualização que queria João XXIII, e que se manteve vigente, sobretudo nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI.

A nomeação de Francisco oxigenou o ambiente eclesial e há sintomas de uma nova primavera eclesial: é retomado o impulso do Vaticano II e se deseja voltar às atitudes evangélicas das origens da Igreja.

Não é por acaso que Francisco é o primeiro papa latino-americano, uma vez que na América Latina houve uma recepção criativa e evangélica do Concílio Vaticano II, que resultou em ouvir o grito dos pobres (Medellín, 1968), na opção pelos pobres (Puebla, 1979), na inculturação nas culturas indígenas e afro-americanas (Santo Domingo, 1992), no impulso para um discipulado missionário e numa Igreja em estado de missão (Aparecida, 2007). Nos anos 1960-80, surgiu na América Latina a imagem da Igreja dos pobres, com bispos que foram verdadeiros Santos Padres da Igreja dos pobres, comunidades eclesiais de base (CEBs), leigos empenhados na justiça, mulheres defensoras dos direitos humanos, agentes pastorais e movimentos apostólicos, a teologia da libertação e numerosos mártires… tudo o que lembra os momentos da Igreja do primeiro milênio. Estas correntes teológicas e pastorais se abriram nas últimas décadas a novos sujeitos e a novos campos: às mulheres, aos indígenas e afro-americanos, aos jovens, às novas identidades sexuais, à ecologia, à religiosidade do povo, à piedade e mística popular, etc.

A eclesiologia de América Latina historizou a salvação (libertação) e o pecado (estruturas que matam) e oferece uma imagem de Igreja dos pobres e diferentes, ao serviço da vida, para que o povo tenha vida plena e em abundância, começando pelo mínimo que é o pão de cada dia.

5 Linhas de força da eclesiologia

Esta diversidade de imagens e reflexões eclesiais tem o risco de nos conduzir a uma dispersão e relativismo eclesiológico, se não procuramos estabelecer os princípios estruturadores da Igreja e da eclesiologia.

Podemos dizer claramente que os princípios estruturadores da Igreja são trinitários, a Igreja é Ecclesia de Trinitate, mas esta Trindade se manifesta ad extra  nas duas missões trinitárias que constituem o princípio cristológico e o princípio pneumatológico, ou do Espírito.

Princípio cristológico: a Igreja é a Igreja de Jesus, preparada e prefigurada profeticamente no Antigo Testamento, centrada em Jesus de Nazaré, Filho de Deus e Palavra encarnada, enviado pelo Pai para realizar seu projeto de filiação e fraternidade universal, o Reino de Deus. A vida de Jesus de Nazaré, suas opções, sua cruz e sua ressurreição revelam e fazem presente o projeto do Pai. Jesus não queria fundar uma comunidade separada de Israel, mas de fato sua comunidade de apóstolos e discípulos, depois da Páscoa, será o núcleo da Igreja futura da qual Jesus é fundamento e pedra angular. A Igreja é o corpo comunitário de Jesus na história, até que chegue sua segunda vinda na Parusia. Jesus é a riqueza, a beleza e a luz da Igreja, sem ele a Igreja é estéril e miserável, a Igreja não significa nada se não é testemunha e sacramento de Jesus.

Princípio pneumatológico: a Igreja não nasce em Belém ou Nazaré, mas na Páscoa com a efusão do Espírito Santo, que preparou a vinda de Jesus, o ungiu no batismo, o guiou na sua vida e o ressuscitou dentre os mortos. Esse mesmo Espírito faz nascer a Igreja e a guia através da história, a santifica, vivifica e rejuvenesce continuamente com os sacramentos e com diversos carismas e dons (LG 12) para que realize o projeto do Pai inaugurado por Jesus (LG 4). Sem o Espírito, a Igreja se reduziria a uma simples organização humanitária e social que faz propaganda do evangelho. Com o Espírito, a Igreja é a comunhão trinitária. Sua missão é um Pentecostes continuado. No entanto, o Espírito age além da Igreja católica e das Igrejas cristãs e faz com que a salvação chegue a todos os que, por caminhos misteriosos para nós, podem ser associados ao mistério pascoal (GS 22).

Não há uma Igreja sem Espírito (tentação do cristomonismo ou de Cristo sozinho) nem um Espírito sem Jesus (espiritualismo, iluminismo, gnosticismo, new age…). O Filho encarnado em Jesus e no Espírito são os dois braços do Pai que desde a criação acompanham e guiam toda a humanidade (Irineu[1]). A Igreja é ícone da Trindade.

Essa Igreja se manifesta como anúncio e testemunha do evangelho (kerigma e martírio), celebração eucarística e sacramental (liturgia), serviço ao mundo, sobretudo aos pobres (diaconia) e tudo isso em comunidade e comunhão (koinonia).

Desde o Vaticano II, a Igreja pode ser definida como sacramento[2], isto é, um sinal e instrumento da união com Deus e com a humanidade (LG 1; 9; 48), não é uma simples instituição hierárquica, nem um entusiasmo sem mediação sacramental. Não é o Reino, mas semente do Reino (LG 5).  É sacramento histórico de libertação (teologia da libertação), foi convocada pelo Pai para fazer memória e seguir o caminho de Jesus para o Reino, pela força do Espírito. Seu ícone é a figura de Maria, tipo e modelo da Igreja (LG VIII). São retomadas as imagens paulinas e trinitárias da Igreja: Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito.

6 Desafios da Igreja para o futuro

São muitos os desafios atuais da Igreja para o futuro. Em geral, podemos dizer que o maior desafio é levar a bom termo o que o Concílio Vaticano II propôs e ainda não foi possível realizar, por exemplo, potencializar a colegialidade episcopal e as Igrejas locais, o desenvolvimento dos leigos, respeitar a legítima autonomia da criação… No entanto, há outros temas que o concílio não abordou e que devem ser enfrentados hoje: reforma do Papado e da cúria, promover a ordenação de homens casados (viri probati), revisar o papel da mulher na Igreja, repensar a moral e pastoral sexual e matrimonial, dialogar com os teólogos e teólogas, assumir o desafio ecológico…

Além disso, no momento de mudança epocal e axial que vivemos, a Igreja deve iniciar no mistério de Deus (mistagogia) e dialogar com todas as religiões para procurar  conjuntamente a justiça, a paz e a integridade da criação.

Contudo, podemos afirmar que todas estas mudanças estruturais, ainda que sejam necessárias, são insuficientes e, finalmente, inviáveis se a Igreja como Povo de Deus não volta de novo ao evangelho de Jesus de Nazaré e se deixa guiar pelo Espírito do Senhor. As mudanças na Igreja e na sociedade normalmente vêm de baixo. O Espírito do Senhor age a partir de baixo. De uma Igreja convertida ao evangelho poderá nascer uma Igreja simples, pobre e dos pobres, sincera, acolhedora, que promova o diálogo, a proximidade e a ternura, que sinta a alegria de conhecer, viver e anunciar o evangelho; uma Igreja que dê testemunho ao mundo do amor e da misericórdia do Pai, que suscite esperança, uma Igreja preocupada, antes de tudo, com dor e sofrimento humanos, que denuncie a idolatria do dinheiro e as estruturas econômicas que excluem e matam o povo; uma Igreja que saia às ruas, que possa ir às fronteiras e às margens sociais e existenciais, que respeite os que pensam diferente e não os julgue, uma Igreja que seja casa e lar de portas abertas e não queira reconquistar o poder e prestígio perdidos nem voltar a uma nova Cristandade, mas ser levedura e fermento em um mundo pluralista. Não é esta a imagem de Igreja que promove o Papa Francisco? A todos os batizados corresponde sermos audazes e criativos para ir configurando uma Igreja fiel às suas origens e que possa discernir os novos sinais dos tempos.

Concluamos com uma definição de Igreja de João Crisóstomo, que pode resumir tudo o que discutimos: “Sínodo é o nome da Igreja”,[3]  ou seja, uma comunidade unida pelo Espírito do Senhor caminha com a humanidade para o Reino de Deus, dando testemunho do evangelho de Jesus de Nazaré.

Víctor Codina sj. Universidad Católica de Bolivia, Cochabamba, Bolivia. Texto original espanhol.

7 Referências bibliográficas

CODINA, Víctor. Para compreender a Eclesiologia a partir da América Latina. São Paulo: Paulinas,  1993.

______. Para comprender la eclesiología desde América Latina. Estella: Verbo Divino, 2008. (nova edição atualizada)

KASPER, Walter. A Igreja católica. São Leopoldo: Unisinos, 2012.

Para saber mais

BOFF, Leonardo. Eclesiogénesis. Santander: Sal Terrae, 1982.

CONGAR, Yves-Marie. Eclesiología desde San Agustín a nuestros días.  Madrid: BAC,  1976.

DE ALMEIDA, Antonio José. Lumen Gentium, a transição necessária. São Paulo: Paulus, 2005.

DE LUBAC, Henri. Meditación sobre la Iglesia. Bilbao: DDB, 1959.

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MYSTERIUM SALUTIS IV/1. Madrid: Cristandade, 1973.

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QUIROZ, Álvaro. Eclesiología en la teología latinoamericana de la liberación. Salamanca: Sígueme, 1983.

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RATZINGER, Josef.  El nuevo Pueblo de Dios. Barcelona: Herder, 1972.

SOBRINO, Jon. Resurreccion de la verdadera Iglesia. Santander: Sal Terrae, 1981.

[1] Adv Haer IV,7,4;II, 25,1; IV 20,1.3.4; V 1,3; V 6,1;V 16,1.

[2] Essa concepção de Igreja-sacramento tem raízes tradicionais na eclesiologia e nos anos anteriores ao Vaticano II foi elaborada principalmente por K. Rahner e Semmelroth.

[3] PG 55, 493.